Por que as oliveiras são tão importantes na Grécia? A mitologia grega explica

Em meio à paisagem árida da Ática, as oliveiras não são somente árvores. Elas representam a história, a economia, a espiritualidade e a identidade cultural de Atenas. Desde a Antiguidade, a capital grega adotou medidas rigorosas para garantir que suas oliveiras sobrevivessem e prosperassem, protegidas por leis, mitos e práticas agrícolas que atravessaram séculos.

O papel das oliveiras na vida ateniense antiga

Já na mitologia grega, a oliveira desempenhou um papel importante na Grécia. Foto: brazilgreece.

Para entender a importância das oliveiras na antiga Atenas, é preciso ir além do valor agrícola. A mitologia grega conta que a deusa Atena teria presenteado a cidade com uma oliveira, símbolo de paz e prosperidade, durante um duelo contra Poseidon pelo domínio da região. Esse gesto mítico não só garantiu à deusa a patronagem da cidade como também colocou a oliveira no centro da identidade ateniense.

A árvore que, segundo a lenda, nasceu no alto da Acrópole, onde hoje se encontra o Templo de Erectêion, tornou-se símbolo sagrado. Algumas oliveiras, conhecidas como moriai, eram consideradas propriedade do Estado e protegidas por lei. Danificar uma dessas árvores poderia resultar em severas punições, inclusive a morte.

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Leis que anteciparam a sustentabilidade

No século VI a.C., o legislador Solon, um dos principais nomes na organização política e social de Atenas, percebeu o valor estratégico das oliveiras para o futuro da cidade. Suas reformas incluíram leis específicas para proteger os olivais.

Uma dessas medidas limitava o corte de oliveiras: nenhum proprietário podia derrubar mais do que duas árvores por ano em seus próprios campos. Essa regra simples, mas eficaz, ajudava a evitar o desmatamento e a manter o equilíbrio produtivo. Além disso, havia normas sobre a distância mínima entre as árvores, principalmente para figueiras e oliveiras, com o objetivo de evitar que uma prejudicasse o desenvolvimento da outra. Era uma forma de manejo agrícola que priorizava a saúde das plantações.

Essas regras mostram que a noção de preservação ambiental, que hoje faz parte de debates globais, já fazia parte da realidade ateniense há mais de dois mil anos.

Um produto que alimentava o corpo, o comércio e a cultura

O azeite de oliva extraído das árvores atenienses era conhecido por sua pureza e qualidade. Textos de autores antigos, como Plínio, o Velho, e Galeno, exaltavam as propriedades do azeite grego, especialmente o de Atenas, como alimento e medicamento. O produto obtido da primeira prensagem de azeitonas verdes tinha baixa acidez e um sabor intenso, características que se alinham ao que hoje conhecemos como azeite extra virgem.

Esse “ouro líquido”, como foi chamado por Homero, tinha usos diversos. Alimentava famílias, iluminava casas e templos, era usado em tratamentos medicinais, práticas esportivas e rituais religiosos. Atletas se untavam com azeite antes dos treinos e combates, tanto para proteger a pele quanto para facilitar a limpeza do corpo após os exercícios.

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Prêmios, rituais e moedas

O azeite também era protagonista em festivais e competições. Durante os Jogos Panatenaicos, realizados em honra à deusa Atena, os vencedores recebiam ânforas grandes recheadas com azeite de oliva puro. Essas ânforas, chamadas Panathenaic amphorae, eram decoradas com cenas de competições e da própria deusa, e representavam uma riqueza considerável.

Além disso, o símbolo da oliveira aparecia nas moedas e nas obras de arte da cidade, reforçando sua presença como parte do imaginário coletivo. Raminhos de oliveira eram usados para coroar campeões olímpicos, e ramos estendidos simbolizavam pedidos de paz.

O saber médico e o uso terapêutico

A medicina grega também reconhecia o valor do azeite. O médico Hipócrates, conhecido como o pai da medicina ocidental, mencionou dezenas de usos terapêuticos para o óleo, que incluíam o tratamento de feridas, inflamações, problemas de pele e até queimaduras. O azeite também era aplicado em massagens para aliviar dores e melhorar a flexibilidade muscular.

O conhecimento médico grego via a alimentação como parte essencial do cuidado com o corpo. A frase “Que seu alimento seja seu remédio e que seu remédio seja seu alimento”, atribuída a Hipócrates, reflete esse entendimento e permanece atual em muitos contextos da nutrição moderna.

A tradição do cultivo e da proteção das oliveiras não se perdeu com o tempo. Muitas das oliveiras existentes hoje na região da Ática são descendentes diretas das antigas árvores protegidas por Solon. Mesmo após guerras, ocupações e mudanças urbanas, as oliveiras seguem de pé, muitas delas em locais históricos ou em meio a bairros modernos de Atenas.

No século XXI, a Grécia continua sendo uma das maiores produtoras de azeite do mundo. A qualidade do produto grego é reconhecida internacionalmente, e o país exporta toneladas de azeite por ano. Mas, para os gregos, essa produção tem um significado que vai além do mercado: trata-se de manter viva uma herança cultural profunda.

No Brasil, o azeite de oliva é um produto cada vez mais presente nas mesas e nas dietas de quem busca uma alimentação saudável. Nos últimos anos, inclusive, a produção de azeite nacional tem crescido, especialmente em regiões do Sul com clima mais favorável. Mas o azeite grego, com seu sabor marcante e sua tradição milenar, ainda ocupa um lugar especial entre os importados mais valorizados.

  • Grego, morou na Grécia por quase toda a sua vida e em Londres por 3 anos. Trabalhou como Bar Manager, Bartender e Barista em Londres e na Grécia. Além de ter trabalhado nas melhores cozinhas e bares de Londres e da Grécia. Participou de renomados cursos na área e compartilhou o seu conhecimento com seus alunos pela Europa. Por ser apaixonado pelo seu país, encontrou por meio da escrita uma forma de compartilhar com os brasileiros o seu conhecimento sobre viagens, história, cultura, mitologia grega e culinária geral, trazendo o melhor da Grécia para vocês.

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