Uma descoberta feita há mais de seis décadas voltou a ganhar destaque entre pesquisadores e pode alterar parte da compreensão atual sobre a evolução humana. Trata-se do chamado Crânio de Petralona, encontrado por acaso em 1960 em uma caverna no norte da Grécia. Após novas análises, cientistas apontam que ele pertence a um hominídeo que viveu há cerca de 300 mil anos, um período-chave na transição entre diferentes espécies humanas.
O estudo mais recente, publicado por uma equipe do Museu de História Natural de Londres na Journal of Human Evolution, utilizou tecnologia moderna para reavaliar o fóssil e revelou dados que reabrem o debate sobre as origens do Homo sapiens e a diversidade de espécies humanas que habitaram a Europa e outras partes do mundo.
O que é o Crânio de Petralona?
O crânio de Petranola.
O fóssil foi descoberto dentro de uma caverna próxima à vila de Petralona, na região da Macedônia Central. Ele estava praticamente preso à parede, coberto por uma camada espessa de calcita, mineral comum em ambientes úmidos e cavernosos. Por muitos anos, houve incerteza sobre sua idade real e até sobre a qual espécie o crânio pertenceria.
Com os novos exames, que usaram a técnica de datação por séries de urânio, foi possível medir com mais precisão quanto tempo se passou desde a formação da calcita sobre o fóssil. Isso permitiu aos cientistas estimar a idade do crânio em aproximadamente 300 mil anos.
Quem foi o “Homem de Petralona”?
A análise morfológica do crânio indica que ele pertence a um Homo heidelbergensis, uma espécie de hominídeo que ocupou a Europa durante o período Pleistoceno. Esses indivíduos tinham porte físico semelhante ao do ser humano moderno, mas com traços craniofaciais mais rústicos e uma capacidade craniana que já se aproximava da dos Homo sapiens.
O Homo heidelbergensis é considerado um possível ancestral comum tanto dos neandertais (que surgiram na Europa) quanto dos humanos modernos (cujos primeiros registros estão ligados à África). O crânio grego apresenta justamente características intermediárias: enquanto o tamanho do cérebro se assemelha ao do Homo sapiens, a estrutura do rosto difere bastante dos dois grupos que vieram depois.
A grande importância do crânio de Petralona está no fato de ele reforçar a ideia de que a evolução humana não foi linear, como por muito tempo se acreditou. Em vez de uma linha reta que vai do Australopithecus até o Homo sapiens, o cenário mais aceito hoje é de um emaranhado de espécies que coexistiram, se cruzaram ou desapareceram sem deixar descendentes diretos.
A presença de um Homo heidelbergensis na Grécia nesse período indica que populações humanas antigas estavam mais espalhadas pela Europa do que se pensava. Além disso, a diversidade anatômica do fóssil sugere que as diferenças entre os grupos humanos daquele tempo eram maiores do que a ciência previa até aqui.
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Impactos sobre a teoria da origem humana
A teoria mais difundida sobre a origem do Homo sapiens é a chamada “Out of Africa”, segundo a qual os humanos modernos surgiram no continente africano há cerca de 200 mil anos e migraram para outros continentes milhares de anos depois, substituindo gradualmente outras espécies. A nova datação do crânio de Petralona não nega essa hipótese, mas acrescenta camadas de complexidade ao cenário.
Se os Homo heidelbergensis estavam ativos na região do sul da Europa há 300 mil anos, é possível que alguns traços presentes nos humanos modernos tenham se originado fora da África. Essa descoberta fortalece a visão de que a Eurásia teve um papel mais relevante no processo de evolução do que se imaginava.
Além disso, os estudos mostram que a região dos Bálcãs, onde fica a Grécia, pode ter servido como ponte de contato entre populações africanas, europeias e asiáticas, facilitando trocas genéticas e culturais ao longo de milênios.
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A reinterpretação do fóssil só foi possível graças ao uso de técnicas modernas de datação geológica, especialmente o estudo da decomposição do urânio em tório presente na calcita que recobria o crânio. Como a calcita se forma a partir de processos naturais bem compreendidos, ela funciona como um marcador confiável do tempo.
Esse avanço mostra como a ciência atual consegue revisitar achados antigos com novos recursos, muitas vezes abrindo caminhos inesperados para interpretações que não estavam disponíveis décadas atrás.
Essa descoberta não para por aí…
Embora o novo estudo tenha reduzido as incertezas sobre a idade do crânio e sua espécie, várias questões permanecem em aberto. Por exemplo: qual era a relação exata entre os Homo heidelbergensis e outras espécies humanas? Houve cruzamentos com neandertais ou com os primeiros Homo sapiens? E o que mais essa caverna grega pode esconder?
Para encontrar respostas, novos trabalhos de campo e análises genéticas serão necessários. A caverna de Petralona, inclusive, continua sendo estudada por arqueólogos e paleoantropólogos que buscam entender melhor o cotidiano desses primeiros europeus.
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