Em outubro, a Escócia será palco de um leilão que deve atrair colecionadores do mundo todo. O Distillers One of One, organizado com a Sotheby’s, terá como estrela o Port Ellen Prism, um uísque de 46 anos que pode alcançar até US$ 400 mil (cerca de R$ 2,4 milhões). Destilado em 1978 e engarrafado em um decantador exclusivo de 1,5 litro, ele carrega o título de mais antigo já lançado pela tradicional destilaria Port Ellen, famosa entre os apreciadores de single malt.
A peça que abriga o uísque foi criada pelo artista alemão Wilfried Grootens, conhecido por trabalhar com camadas de vidro que parecem flutuar em formas tridimensionais. No Prism, ele buscou retratar visualmente a fumaça, um dos traços marcantes dos uísques produzidos na ilha de Islay. Mais do que um recipiente, o decantador é parte da experiência e ajuda a explicar por que uma bebida pode alcançar cifras tão altas: exclusividade, história e estética andam lado a lado nesse mercado.
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Por que esse uísque é tão caro?
O Port Ellen Prism mostra bem como a raridade dita preços. Só existe uma unidade, criada especialmente para este leilão beneficente. A trajetória da própria destilaria ajuda a elevar o interesse. Fechada em 1983, a Port Ellen ficou décadas sem produzir, e os barris que ainda restavam se transformaram em lendas entre colecionadores. Quando a marca retomou suas atividades em 2023, cada novo lançamento passou a ser tratado como um acontecimento.
O tempo de maturação também conta muito. Quase meio século dentro de barris torna o uísque ainda mais raro, já que poucas destilarias conseguem guardar estoques por tanto tempo. Some-se a isso o fato de a arrecadação ir para o Youth Action Fund, que apoia jovens em situação de vulnerabilidade na Escócia, e o resultado é um cenário em que colecionadores competem não apenas pelo prestígio da garrafa, mas também pelo caráter filantrópico do evento.
Embora o Prism concentre os holofotes, outros nomes importantes também estarão no leilão, como Laphroaig e Old Pulteney, ambas com rótulos raros em tiragens limitadas. O mercado já mostrou do que é capaz: em 2019, uma garrafa do Macallan 1926 foi vendida por mais de US$ 2 milhões, recorde que até hoje impressiona.
Esse tipo de valorização não se restringe ao uísque. No universo dos vinhos, o francês Romanée-Conti 1945 chegou a ultrapassar os US$ 550 mil em leilão. Já no campo dos conhaques, exemplares da Henri IV Dudognon Heritage, envelhecidos por mais de um século e engarrafados em recipientes adornados com ouro e diamantes, figuram entre as bebidas mais caras já comercializadas.
O que faz os preços subirem tanto?
Os preços que transformam certas garrafas em itens milionários não surgem por acaso. Há alguns elementos que ajudam a entender por que esses valores alcançam patamares tão altos.
Um dos fatores mais relevantes é o tempo. Bebidas antigas são naturalmente raras, porque poucas conseguem atravessar décadas bem preservadas. O envelhecimento correto adiciona camadas de aroma, sabor e complexidade que simplesmente não podem ser reproduzidas em laboratório ou em versões mais jovens. Quanto mais antiga a bebida e mais bem conservada, maior tende a ser seu valor.
Outro aspecto é a exclusividade. Quando uma destilaria ou vinícola lança uma edição única ou uma série extremamente limitada, essa garrafa passa a ser tratada como uma obra de arte. A lógica é simples: quanto menor a oferta, maior a procura e, consequentemente, mais intensa a disputa entre colecionadores.
O prestígio também pesa. Marcas como Macallan, Port Ellen ou Romanée-Conti carregam histórias que atravessam gerações. Elas não comercializam apenas bebidas, mas um patrimônio cultural e simbólico. Quem compra uma dessas garrafas não leva apenas o líquido, mas também a tradição, a reputação e o peso histórico que a acompanham.
Além desses pontos centrais, há outros detalhes que reforçam ainda mais o preço. Muitas edições vêm em embalagens luxuosas, com design elaborado, feitas em parceria com artistas renomados. Isso transforma cada garrafa em objeto de desejo, não só pela bebida em si, mas pelo que ela representa. Em muitos casos, ela é tão valiosa pelo design e pela narrativa que carrega quanto pelo líquido que guarda.
Assim, tempo, exclusividade, prestígio e o valor simbólico que envolve cada edição explicam por que certas garrafas ultrapassam facilmente a barreira do milhão.
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Guardar ou abrir?
Diante de valores tão elevados, a dúvida que fica é: abrir, ou guardar a garrafa?
Uma questão frequente entre os compradores é: beber ou guardar? Para muitos, essas garrafas acabam sendo tratadas como investimento. Assim como obras de arte, podem valorizar com o tempo e ser revendidas em novos leilões.
Por outro lado, há quem prefira compartilhar a experiência de abrir uma raridade em ocasiões especiais. A diferença é que, nesse caso, a celebração tem um preço alto e irreversível: uma vez consumida, a garrafa deixa de existir. Essa tensão entre preservação e consumo é parte do que torna esse mercado tão peculiar.
Por fim, com o retorno de destilarias históricas e o aumento da procura por itens de luxo, a tendência é que o mercado continue crescendo. Edições exclusivas devem seguir batendo recordes, e cada novo leilão traz a expectativa de qual será a próxima garrafa a alcançar cifras milionárias.
Ao mesmo tempo, surgem discussões sobre até que ponto esses valores refletem a qualidade da bebida ou a busca por status. O fato é que, em casos como o do Port Ellen Prism, o preço vai além do líquido. Envolve história, arte, tradição e o desejo humano de possuir algo que quase ninguém mais tem.
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